Fale conosco
Address: R. Dr. Nicolau de Sousa Queirós, 34 | Vila Mariana | São Paulo - SP
Blog
Fórmulas da MTC

Qiju Dihuang Wan: a história e a tradição da fórmula da família Dihuang com Goji e Crisântemo

O Qiju Dihuang Wan (杞菊地黄丸) é uma das variações clássicas mais conhecidas da Farmacopeia Chinesa. Seu nome pode ser traduzido como “Pílula de Rehmannia com Goji e Crisântemo”, e ela pertence à grande família de fórmulas derivadas do célebre Liu Wei Dihuang Wan. Na teoria da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), é classificada como um tônico de Yin. Neste artigo, contamos a história da fórmula, a lógica tradicional por trás dela, as suas oito ervas, algumas curiosidades sobre o goji e o crisântemo na cultura chinesa — e o que a pesquisa científica moderna tem estudado a seu respeito.

O que é Qiju Dihuang Wan?

O Qiju Dihuang Wan (杞菊地黄丸) é uma variação clássica do Liu Wei Dihuang Wan, com o acréscimo de goji (Gou Qi Zi) e crisântemo (Ju Hua). Na tradição da Medicina Tradicional Chinesa, é associada ao Yin do Fígado e do Rim e, classicamente, relacionada aos olhos na teoria chinesa. No Brasil, é comercializada pela Taimin como produto isento de registro sanitário conforme a RDC 901/2024 da ANVISA, vendida mediante prescrição de profissional habilitado — não é medicamento e não se destina a diagnosticar, tratar, curar ou prevenir doenças.

Este é um conteúdo educativo sobre a tradição da MTC. Não constitui indicação terapêutica, diagnóstico ou promessa de resultado. As fórmulas clássicas devem ser usadas sob orientação de um profissional habilitado.

Uma variação clássica sobre uma fórmula milenar

O Qiju Dihuang Wan não é uma fórmula isolada: ele é uma variação clássica construída sobre o Liu Wei Dihuang Wan (六味地黄丸), a “Pílula de Rehmannia das Seis Ervas” — provavelmente a fórmula mais famosa de toda a tradição chinesa, cuja base de seis ervas é atribuída, na história da MTC, ao trabalho de médicos da dinastia Song.

A lógica das fórmulas clássicas chinesas é, em boa parte, modular: a partir de uma base bem estabelecida, mestres da tradição acrescentavam ou retiravam ervas para deslocar a ênfase da fórmula. O Qiju Dihuang é o resultado de um desses ajustes: parte-se da base completa de seis ervas do Liu Wei e acrescentam-se duas ervas — o Goji (Lycii Fructus, Gou Qi Zi) e o Crisântemo (Chrysanthemi Flos, Ju Hua). Os próprios caracteres do nome contam essa história: “Qi” (杞) vem de Gou Qi Zi (goji) e “Ju” (菊) vem de Ju Hua (crisântemo), anexados ao “Dihuang” (地黄, a Rehmannia) que dá nome a toda a família.

Na tradição, essas duas ervas adicionadas são associadas ao Fígado (um construto teórico da MTC), e o acréscimo desloca a ênfase da fórmula no sentido de nutrir o Yin do Fígado e do Rim — motivo pelo qual, classicamente, o Qiju Dihuang é a variação da família tradicionalmente associada aos olhos dentro da teoria chinesa.

⚠️ A associação tradicional “aos olhos” é um construto da teoria da MTC — uma forma de classificação dentro da tradição — e não uma indicação para qualquer condição da visão. Não use esta fórmula como solução para sintomas oculares.

A lógica tradicional: “três tonificam, três drenam” — mais duas

Os conceitos a seguir (Yin, Rim, Fígado, Baço) são construtos teóricos da MTC — não correspondem aos órgãos ou diagnósticos da medicina moderna.

O coração do Qiju Dihuang é a mesma arquitetura genial que tornou o Liu Wei Dihuang Wan tão estudado: a estrutura 三补三泻 (san bu san xie) — “três tonificam, três drenam”. A ideia tradicional é nutrir de forma estável, sem sobrecarregar:

  • Três que tonificam:
  • Rehmanniae Radix Praeparata (Shu Di Huang) — a erva-imperatriz, associada na tradição ao Yin do Rim.
  • Corni Fructus (Shan Zhu Yu) — associada ao Fígado.
  • Dioscoreae Rhizoma (Shan Yao) — associada ao Baço.
  • Três que harmonizam/drenam (equilibram os tonificantes, evitando estagnação):
  • Alismatis Rhizoma (Ze Xie), Moutan Cortex (Mu Dan Pi) e Poria (Fu Ling).

Sobre essa base equilibrada de seis ervas, o Qiju acrescenta o seu par característico:

  • Duas que caracterizam o Qiju (o “Qi” e o “Ju” do nome):
  • Lycii Fructus (Gou Qi Zi / Goji) e Chrysanthemi Flos (Ju Hua / Crisântemo) — associadas, na tradição, ao Fígado.

É esse acréscimo que distingue o Qiju Dihuang Wan dentro da família: ele mantém o equilíbrio clássico entre “nutrir” e “não sobrecarregar” e o complementa com duas ervas que a tradição relaciona ao Yin do Fígado.

As oito ervas

Erva (nome farmacopeico)Nome MTCPapel na tradição
Rehmanniae Radix PraeparataShu Di HuangImperatriz — nutre o Yin
Corni FructusShan Zhu YuMinistra — associada ao Fígado
Dioscoreae RhizomaShan YaoMinistra — associada ao Baço
Alismatis RhizomaZe XieAssistente — harmoniza
Moutan CortexMu Dan PiAssistente — harmoniza
PoriaFu LingAssistente — harmoniza
Lycii FructusGou Qi Zi (Goji)Caracteriza o Qiju — associada ao Fígado
Chrysanthemi FlosJu Hua (Crisântemo)Caracteriza o Qiju — associada ao Fígado

Curiosidades

  • A “família Dihuang”. O Liu Wei Dihuang Wan é o tronco de toda uma família de variações clássicas, e o Qiju é um dos seus ramos mais conhecidos. A partir da mesma base de seis ervas surgem, por exemplo, o Qiju Dihuang Wan (com goji e crisântemo), o Zhibai Dihuang Wan (com anemarrhena e phellodendron) e o Guifu Dihuang (que reintroduz componentes de natureza aquecedora). Conhecer uma ajuda a entender as outras: todas partilham o mesmo “esqueleto” e diferem pelo que se acrescenta.
  • O goji na cultura chinesa. O Gou Qi Zi (枸杞子), conhecido no Ocidente como goji ou wolfberry, é o fruto vermelho do gênero Lycium. Na cultura chinesa, é um ingrediente tradicional tanto da cozinha quanto da fitoterapia — aparece em sopas, chás e caldos — e, na teoria da MTC, é uma das ervas classicamente associadas ao Fígado e ao Yin.
  • O crisântemo na cultura chinesa. O Ju Hua (菊花) — a flor do crisântemo — tem um lugar especial na cultura chinesa, sendo uma das flores celebradas na poesia e nas tradições do país. Além do uso ornamental, é tradicionalmente preparado como chá de crisântemo, uma bebida popular, e é uma erva clássica da farmacopeia. É justamente esse o “Ju” que dá nome ao Qiju.
  • O nome conta a receita. Como em boa parte das fórmulas clássicas, o nome do Qiju Dihuang Wan é praticamente uma etiqueta de composição: “Qi” (goji) + “Ju” (crisântemo) + “Dihuang” (Rehmannia) + “Wan” (pílula). Quem aprende a ler os nomes começa a “ler” as próprias fórmulas.

O que diz a pesquisa científica

⚠️ As referências abaixo são de interesse científico e educacional. Não constituem alegação terapêutica nem garantia de resultado. A literatura sobre fórmulas da MTC é majoritariamente de caracterização farmacológica e estudos pré-clínicos, com metodologia heterogênea. Como o Qiju Dihuang Wan tem literatura própria concentrada em condições clínicas específicas (imprópria como referência educativa neutra), priorizamos aqui estudos sobre a família da fórmula (Liu Wei Dihuang) e sobre as duas ervas que a caracterizam (Goji e Crisântemo). (Fonte: PubMed.)

A família do Qiju é, há décadas, objeto de estudo da farmacologia moderna — sobretudo na caracterização química de seus componentes e na investigação de seus mecanismos. Da fórmula-base e das ervas que distinguem o Qiju, destacam-se:

  1. Cheng XR, Qi CH, Wang TX, Zhou WX, Zhang YX (2019). Characteristics of the traditional Liu-Wei-Di-Huang prescription reassessed in modern pharmacology. Chinese Journal of Natural Medicines, 17(2):103–121. — Revisão da família Dihuang (a base da qual o Qiju deriva): controle de qualidade, fitoquímica, farmacocinética e toxicologia. DOI · PubMed
  2. Liu Y, Lu C, Zhou J, Zhou F, Gui A, Chu H, Shao Q (2024). Chrysanthemum morifolium as a traditional herb: A review of historical development, classification, phytochemistry, pharmacology and application. Journal of Ethnopharmacology, 330:118198. — Revisão da erva Crisântemo (Ju Hua), uma das que caracterizam o Qiju: desenvolvimento histórico, fitoquímica e aplicações. DOI · PubMed
  3. Yu Z, Xia M, Lan J, Yang L, Wang Z, Wang R, Tao H, Shi Y (2023). A comprehensive review on the ethnobotany, phytochemistry, pharmacology and quality control of the genus Lycium in China. Food & Function, 14(7):2998–3025. — Revisão do gênero Lycium / Goji (Gou Qi Zi), a outra erva que caracteriza o Qiju: etnobotânica, fitoquímica e controle de qualidade. DOI · PubMed

Como a tradição utiliza a fórmula

Na MTC, o uso é sempre individualizado: um profissional habilitado avalia o padrão de cada pessoa dentro da teoria da Medicina Chinesa antes de recomendar uma fórmula. A apresentação em pílulas (wan) é a forma tradicional, pensada para uso contínuo e absorção gradual.

Produto isento de registro sanitário conforme RDC 901/2024. Venda sob prescrição de profissional habilitado. Este conteúdo é educativo sobre a tradição da Medicina Tradicional Chinesa e não constitui indicação terapêutica, diagnóstico ou promessa de resultado.


👉 Conheça o produto: Qiju Dihuang Wan – Taimin, na Novas Raízes

Comments are closed.

Similar Posts

Zhi Bai Di Huang Wan: a história e a tradição da variação “refrescante” da fórmula das seis ervas

O Zhi Bai Di Huang Wan (知柏地黄丸) é uma das variações clássicas mais conhecidas da Farmacopeia Chinesa. Seu n

Read More
Yupingfeng San: a história e a tradição do “Biombo de Jade”, a fórmula clássica de apenas três ervas

O Yupingfeng San (玉屏風散) — conhecido em cápsulas como Yupingfeng Jiaonang — é uma das fórmulas mais querid

Read More
Xiang Sha Yang Wei Wan: a história e a tradição da fórmula que “nutre o Estômago”

O Xiang Sha Yang Wei Wan (香砂养胃丸) é uma das fórmulas clássicas mais conhecidas da Farmacopeia Chinesa dedica

Read More